sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

# Ø19 Terapia do grito

       Vivíamos num tempo em que as pessoas eram excessivamente previsíveis, destituídas de criatividade, sem tempero emocional, aprisionadas nas teias da solidão. Atores ou atrizes, cantores, políticos, cientistas, religiosos, executivos de grandes empresas eram enfadonhos, tediosos, e não poucas vezes indigestos. Nem eles se suportavam.  A dissimilitude de pessoas tornava um mundo pobre obcecado por fama e dinheiro.
De repente, quando navegávamos no oceano do tédio, apareceu um homem surfando em ondas raramente vista. Rompendo uma rotina de desilusão no mundo em que até os jovens estavam sem entusiasmo pelos seus ícones. Talvez fosse de se duvidar da sua inteligência.  Ele era um maltrapilho que dormia na rua, com uma aparência horrível rejeitado por todos, mas com um coração enorme. Sua estratégia era fazer com que as pessoas liberassem a felicidade acumulada dentro delas. O homem era surpreendente suas idéias eram de ter inveja, era um verdadeiro mestre, um homem apaixonado pela sabedoria.
Num belo dia o mestre e seus seguidores estavam sentados em um Banco de uma praça quando tiveram uma idéia revolucionária. O mestre com toda sua inteligência e franqueza perguntou aos seus seguidores.
        – Pode alguém que está com o coração psíquico enfartado cuidar bem de quem está com o coração físico enfartado? – visto que ninguém soube responder sua pergunta ele mesmo respondeu: – sim pode. Mas não por muito tempo e nem com alta qualidade.
A parti daquele momento seus seguidores e toda a praça, rodeada por médicos cardiologistas profissionais, parou pra vê-lo. Não entenderam o que ele quis dizer com aquela pergunta, mas mesmo assim ficaram com os olhos atentos para presenciarem o inesperado.
 Aaaaaaaaahhh! Uuuuuhh! Aaaaahhh! Uhuuuuul! –  Deu um surto no mestre e ele começou a gritar feito um louco e em seguida caiu desmaiado.
           Naquela hora pensei que o mestre tinha enfartado diante de uma platéia de cardiologistas, cheguei a me preocupar, mas logo vi que era tudo uma estratégia do grande mestre.
           Todas as pessoas estavam preocupadas. Os médicos olhavam um para outro não sabendo o que fazer, não sabendo se era mentira ou verdade, até que uma senhora de 80 anos de idade resolveu ajudar o mestre.
          – Calma doutores, eu conheço este caso. É meu paciente a muitos anos. – e logo em seguida os doutores viram que a situação já estava amenizada, ela completou dizendo: - Vou fazer uma respiração boca a boca. Quero ver se depois disto ele não vai ficar bem.
            Ao perceber que seria beijado por uma senhora de 80 anos, o fabuloso vendedor de idéias levantou depressa e gritou: – Estou bem! – logo em seguida tentou se explicar diante de uma platéia decepcionada pelo teatro. – Caros doutores, acabei de fazer a terapia do grito.  Uma terapia que eu e minha seguidora Joanna criamos nos hospitais da vida para desestressar o coração!
            Vendo que haviam sido enganados, alguns cardiologistas colocaram a mão na cabeça. Sentiram-se idiotas. Outros lhe deram uma bronca. E ainda outros queriam socá-lo. E então o sábio entrou com sua lição de moral, e o observou:
             – Amigos, já repararam que nossa emoção vai de um extremo ao outro em uma fração de segundos? Num instante estamos tranquilos e em outro, explosivos. Num momento calmo e em outro, agressivo. Não é isso falência psíquica? Já repararam como nossa mente sofre por bobagens, flutua por diminutas frustrações, compra problemas que não são dela? Não é isso uma parada cardíaca psíquica? Por que ficaram irado comigo? Pelo menos tentei desestressar. Não machuquei, não feri, não projetei sua ansiedade na voz.
Após a esta fala, os doutores ali presente  ficaram pasmos com sua intervenção. Jamais imaginaram que em um congresso de cardiologia na praça um mendigo dissesse que estavam com o psiquismo ruim, gravemente flutuante. E o mestre, continuou dizendo:
– O sistema de saúde os levou a traírem em parte a ética de Hipócrates, o pai da medicina: cuidaram dos pacientes, mas abandonaram a si mesmo. 
           Naquele instante os médicos começaram a bater palmas e admitiram a si mesmo que são heróis por fora, mas fracos por dentro, e em seguida, médico por médico recobrou a consciência, levantando-se e começando a gritar
          Aaaaaaaaahhh! Uuuuuhh! Aaaaahhh! Uhuuuuul!

Dois outros médicos, a dez metros de distância, também começaram a gritar. Em seguida, outros médicos formais, muitíssimo bem comportados, soltaram a voz.
Por momentos, tive também uma vontade louca de dar alguns gritos para espantar meu estresse. Descobri que loucura é contagiosa.

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